Versos, (RE)versos e Afins
Casa das Artes, Bento Gonçalves, 2024Na confluência entre a palavra escrita e a matéria pictórica, a exposição investiga o limiar onde o verso se torna pincelada e a imagem transborda em som. Através de telas que revelam seus reversos texturizados e poéticos, "Versos, (RE)versos e Afins" propõe um diálogo íntimo sobre o que resta, o que insiste e o que se reconstrói após as marés do tempo.
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PRANTO
Disseram-me que a viram e estava chorando...
Sim, estava..
Às vezes ela se inunda e, de si, despencam quase desgovernados os Nilos e suas falências..
Se a enxergarem de novo e perguntarem sobre ela, diga a todos que morrera...
CARTAS PARA TUDO AQUILO QUE RESTAR DEPOIS DA ENCHENTE..
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SILÊNCIO
A pensar sobre o silêncio das coisas e das andorinhas..
A verificar como se atenuam as almas e as roupas...
Como se calam os trilhos dos trens depois da fuga...
Às vezes falo.. às vezes grito.. às vezes danço fados.. mas hoje, hoje, sim, silêncio...
ANOTAÇÕES PARA UMA MELODIA — SILÊNCIO..
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REVERSO LIBERTO
Não há poesia eu sou o poema... eu sou um poema aflito
não há prisões eu sou liberto eu liberto para libertar
Eu escrevo para confessar Eu escrevo para mim e para ninguém Eu escrevo porque não sei julgar E a minha escrita é uma oração vulgar sem poesia...
Não há poesia Eu sou o poema torto liberto aflitivo
Não há poesia ao sul do mundo
Não há o poema Eu sou o poema sujo e frio com fome
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ABISMOS
E um dia ele se perdeu e se achou noutras metades mais tarde se perdeu de novo.
E então descobriu que não haveria outras metades. O que haveria eram tragédias iguais às suas.
Eram escombros mesmos, a parte triste e desestimulada do autor.
Quando resolveu partir deu-se conta de que a ferida era o ganho...
Só que, a partir daquele instante, os abismos eram absolutamente atraentes.
E foi, às vezes, largar-se no abismo é salvar a si mesmo...
INSCRIÇÕES PARA UM ABISMO..
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SORROW
É do que sinto escrevo... Vou melhor com as linhas do que com as bossas...
"THE SWEET SMELL OF SORROW LIES OVER THE LAND..."
— Pink Floyd
Às vezes grito - às vezes choro, - às vezes deságuo
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DESESPERO
e carregamos nossas carcaças, quiçá, algumas tralhas...
e no fim, bem no fim,
talvez a mala vazia do desespero..
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INSÔNIA
Sempre fui também, em alguma medida, algo além... nunca me senti aventurosa desse mundo...
meu fascínio é Saturno e as insônias... não me me alegro c/ a estupidez pequeno-burguesa das coisas inúteis...
escrevo minhas companhias, meu alter ego, meu grande dicionário de neologismos...
O mundo é uma ervilha cozida...
hoje chove e, há na chuva, uma poesia mágica de se escutar rinocerontes caindo das nuvens...
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OBSCURO DISCURSO DO REI
Será rei? Haverá Reinados? Haverá Reinantes?
Ruídos.. Ruídos Ruídos talvez...
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VESTIDO DE AVESSO
Shakespeare fabricou com palavras todos os homens possíveis...
Eu que sou do impossível, fabrico liriantes, versos, pés de laranja Lima...
a minha sina é produzir ecos, escolher sementes, pintar pergaminhos...
mas sou dada a "ismos"
a minha fé é a literatura, nela danço, salamandra mágica - a vida não arde sem grandes incêndios...
VERSOS DE UM POEMA VESTIDO DE AVESSO..
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INVERNOS
O ABANDONO DO AMARELO..
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RIO DAS ANTAS / TAQUARI
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